Vitamina D: A Verdade Solar e a Doença Coletiva, um novo Paradigma.

Texto originalmente publicado para a coluna mensal do site Grão rosa – Saúde Natural Integrada, onde atuo em Nutrologia e medicina Integrativa.

Vitamina D: A Verdade Solar E A Doença Coletiva, Um  Novo Paradigma.

No início do século passado, a Vitamina D foi considerada um micronutriente, pois a administração oral de uma colher de sopa de óleo de fígado de bacalhau por dia curava as crianças com raquitismo e se acreditava que a mesma atuaria como um co-fator enzimático.

 vitamina-d- luiza-savietto-grao-rosa

Com o esclarecimento de vários aspectos fisiológicos e bioquímicos da vitamina D, via estudos científicos e pesquisas, sua forma ativa foi reconhecida como um  hormônio esteróide integrante de um complexo e abrangente eixo metabólico então denominado “sistema endocrinológico vitamina D”. Esse sistema é formado pelas várias moléculas que compõem o grupo vitamina D, sua proteína carreadora (DBP, vitamin D binding protein), seu receptor (VDR, vitamin D receptor) e pelas diversas enzimas que participam da cascata de reações de ativação e inativação, em diversos órgãos do corpo.

Os hormônios esteróides são moléculas fabricadas a partir do colesterol, e atuam agindo sobre um receptor no genoma (conjunto de genes do DNA). Então a forma ativa de vitamina D age habilitando a expressão genética de proteínas e enzimas cruciais para a saúde em centenas de tecidos por todo o corpo. Os sistemas hormonais esteróides são firmemente regulados pelo organismo através de um sistema de retroalimentação positiva/negativa, ou seja, pelos níveis plasmáticos dos mesmos na circulação. Quando os níveis estão muito baixos, o corpo fabrica mais hormônios. Quando aqueles níveis estão muito altos, o corpo produz menos. Este processo não acontece  com a vitamina D, o que poderia em suma justificar o grande espectro de doenças causadas pela carência deste potente hormônio.

Nos seres humanos, apenas 10% a 20% da vitamina D necessária à adequada função do organismo provém da dieta. As principais fontes dietéticas são a vitamina D3 (colecalciferol, de origem animal, presente nos peixes gordurosos de água fria e profunda, como atum e salmão) e a vitamina D2 (ergosterol, de origem vegetal, presente nos fungos comestíveis). Os restantes 80% a 90% são sintetizados endogenamente. A dieta ocidental é pobre em Vitamina D. As fontes naturais são dúbias no real teor de vitamina e na quantidade de toxinas que carregam. Outrossim, a via alimentar não é a escolhida pelo organismo para obter vitamina D, já que a natureza proporcionou um sistema de síntese cutânea altamente eficaz e muito rápido,  fenômeno este que corrobora a necessidade do hormônio D em níveis maiores do que se preconiza em tempos atuais pela medicina.

Para que esse processo de ativação se inicie, é preciso que o indivíduo receba a luz solar direta, especificamente a radiação ultravioleta B (UVB) nos comprimentos de onda entre 290 e 315 nanômetros. A quantidade de melanina na pele pode influenciar na ativação da vitamina, sendo mais lenta em indivíduos mais morenos/negros.

A fobia ao sol e o uso exagerado de protetores solares por medida estética e/ou  por medo de contrair doenças neoplásicas, o estilo de vida corporativo das grandes cidades onde aglomerados de pessoas vivem dia após dia em edifícios e salões que sequer recebem ventilação ou luz natural, a grande quantidade de toxinas presente nos alimentos, no ar, na água, o uso de medicamentos sintomáticos porém  não curativos e a falta de atividades físicas regulares por intensa jornada de trabalho trazem consigo uma devastadora e crescente bolha de doenças coletivas e altamente debilitantes, de tratamentos até hoje  não resolutivos, tendo todas um denominador comum: direta ou indiretamente, estas doenças estão ligadas ao sistema endócrino vitamina D.

Faz-se, então, necessária a suplementação de Vitamina D. Atualmente não há mais controvérsias sobre a necessidade desta suplementação. Como fazê-lo é o ponto controverso.

Estudos prospectivos confirmam a eficácia e segurança de doses elevadas de vitamina D na prevenção de fraturas e terapêutica da Esclerose Múltipla, câncer e outras patologias. As doses limites atualmente preconizadas variam de 1000 a 2000UI/d, sendo que a reposição atual preconizada é de 400 a 800UI/d, dose esta que não provoca mudanças satisfatórias nos níveis séricos da vitamina em vias de deficiência crônica ou patologia associada ao seu declínio no organismo. O uso de doses entre 4000 e 10000UI se mostrou extremamente benéfico em quadros de deficiência da vitamina e sintomas relacionados (dores crônicas, tristeza, procrastinação e sonolência matinal excessiva), perda de massa óssea,  portadores de doença auto-imune. Para cada caso, se utiliza uma dosagem especifica, e em nenhum deles evidenciou-se hipercalciúria ou outros efeitos de toxicidade. Doses séricas entre 60-80 são relatadas como desejáveis no manejo desses casos.  Um profissional médico pode avaliar e conduzir cada caso de forma específica, segundo exames e sinais clínicos de deficiência ou doenças ligadas a carência da vitamina.

O receptor da vitamina D (VDR) é expresso em quase todas as células humanas e parece participar, de maneira direta ou indireta, de regulação de cerca de 3% do genoma humano (ações genômicas).

A dimensão e a complexidade desse sistema endocrinológico podem ser enfatizadas pelo expressivo número de produtos resultantes do metabolismo fisiológico  da vitamina D já descritos, cerca de 40.

A ação clássica da 1,25(OH)2D é a regulação do metabolismo do cálcio e fósforo por meio do controle dos processos de absorção intestinal e reabsorção renal desses íons, mantendo-os em concentrações plasmáticas suficientes para assegurar a adequada mineralização e o crescimento ósseo em crianças e adolescentes e a saúde óssea global em todas as etapas da vida.

Ações no metabolismo osteomineral

Entre os principais órgãos-alvo da 1,25(OH)2D estão o intestino e os rins, integrantes do sistema de controle do metabolismo osteomineral, sobretudo do cálcio e fósforo. Nas células endoteliais do intestino, a 1,25(OH)2D estimula a absorção ativa de cálcio no duodeno e absorção passiva no jejuno.

Ações não calcêmicas

Sistema imunológico: a 1,25(OH)2D apresenta importante papel imunorregulatório autócrino em várias células do sistema imunológico. Atua também na modulação da autoimunidade. Em situações de baixas concentrações de 25(OH)D, o sistema imunológico favorece o desenvolvimento de células T autorreativas direcionadas contra tecidos do próprio organismo e a síntese de interleucinas pró-inflamatórias (IL-12, interferon gama), predispondo-o a um risco aumentado de desenvolver doenças autoimunes, como o diabetes melito tipo 1, artrite reumatoide, esclerose múltipla, doenças inflamatórias intestinais.

Ciclo celular e neoplasias

O  complexo 1,25(OH)2D -VDR participa do controle de várias etapas do ciclo celular por meio da modulação da ativação ou repressão de genes envolvidos na sinalização dos processos de diferenciação, multiplicação e morte celular (controle de células defeituosas).

Estudos epidemiológicos mostram associação entre baixos níveis de 25(OH)D e risco aumentado para o desenvolvimento de alguns tipos de cânceres, sendo os mais estudados nesse contexto os de mama, colorretal e próstata.

Sistema cardiovascular

A 1,25(OH)2D participa do controle da função cardíaca e da pressão arterial por meio da regulação da crescimento das células musculares lisas, do grau de contratilidade miocárdica e da inibição da renina, subtância ligada ao controle da pressão arterial pelos rins.

Gônadas

Os dados dos estudos moleculares sugerem que ele também participe do controle da foliculogênese, da espermatogênese e, consequentemente, dos processos relacionados à fertilidade do indivíduo.

 

Sistema musculoesquelético

Estudos laboratoriais mostram que a 1,25(OH)2D participa da regulação do crescimento dos miócitos e do volume da massa muscular, do tônus e da força muscular, a partir de ações genômicas e não genômicas.

 

Controle do metabolismo glicídico

As evidências atuais sugerem que a influência da 1,25(OH)2D no equilíbrio da glicose seja mediada por ações diretas nas células betapancreáticas.

O conhecimento científico atual evidencia que a deficiência de Vitamina D está associada a ocorrência e à sustentação de direta ou indiretamente todas as doenças classificadas como auto-imunes tais como esclerose múltipla, neurite óptica, doença de Devic, doença de Guillain-Barré, polineuropatia, miastenia gravis, artrite reumatóide, lúpus, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, doença celíaca, cirrose biliar primária, hipotireoidismo (Hashimoto), uveíte, episclerite, psoríase, vitiligo, abortos nos primeiros trimestres, doença periodontal, diabete infanto juvenil, alergias em geral, etc. Também relacionadas à deficiência deste hormônio doenças neoplásicas, hipertensão arterial , diabetes tipo II, mal formações congênitas, doenças cardiovasculares, osteopenia, osteoporose, depressão, transtorno bipolar, enxaqueca, fibromialgia, Parkinson, Alzheimer, sonolência excessiva, indisposição e fraqueza inespecífica.

A deficiência de vitamina D ocorre de maneira similar a uma epidemia, porém  não causada por um agente e sim por um conjunto de condutas coletivas atuais, conforme evidenciado neste artigo. É mister contactar um profissional médico para que juntos possam avaliar o status atual de vitamina D no organismo, através de simples exame de sangue. A investigação de sintomas diversos, tratamentos de doenças crônicas ou condutas terapêuticas frente a quadros patológicos individuais deve obrigatoriamente passar por este diagnóstico diferencial, antes de tratar por exemplo um sintoma de depressão com  medicamentos tóxicos e debilitantes.

Recomendações:

  1. Ao tomar sol, expor pelo menos 25% do corpo (braços e meia perna) sem o uso de protetores solares por pelo menos 20 minutos. Este tempo pode variar de acordo com o teor de melanina na pele e idade.
  2. Vitamina D é Lipossolúvel, portanto pode ser eliminada com o uso de sabonetes posteriormente ao banho solar. Esperar 2h para tomar banho com sabonetes.
  3. Grande parte dos protetores solares, não possui proteção contra raios UVA, relacionados ao Melanoma.
  4. Procurar o uso de fotoprotetor manipulado, usar a proteção FPS (contra raios UVB), a PPD (contra raios UVA) e não colocar toxinas nem substâncias absorvíveis e que danificam e podem causar desequilíbrio hormonal; Protetores acima de FPS 30 não funcionam mais do que sua escala numérica aparenta.

Link para texto original: http://www.graorosa.com.br/noticias/vitamina-d-luiza-savietto-grao-rosa

Bibliografia:

 NORMAN AW. From vitamin D to hormone D: fundamentals of the vitamin D endocrine system essential for good health. Am J Clin Nutr. 2008;88(suppl):491S-9S.

PREMAOR, M. O.; FURLANETTO, T. W. Vitamin D deficiency in adults: to better understand a new presentation of an old disease. Arquivos brasileiros de endocrinologia e metabologia, v. 50, n. 1, p. 25, 2006.

CASTRO, Luiz Claudio Gonçalves de. The vitamin D endocrine system. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 55, n. 8, p. 566-575, 2011.

KIMBAL, S.M., Ursell, M.R., O’Connor, P., Vieth, R. Safety ofvitamin D3 in adults with multiple sclerosis. American Journal of Clinical Nutrition 2007; 86:645-651. –

HATHCOCK, John N. et al. Risk assessment for vitamin D. The American journal of clinical nutrition, v. 85, n. 1, p. 6-18, 2007.

http://www.institutodeautoimunidade.org.br/

Deixe uma resposta